Três campos: Ciência Contemplativa, Estudos de Paz e Transformação de Conflitos

Por Cerys Tramontini

Nossa abordagem nasce do encontro entre três campos de conhecimento: Ciência Contemplativa, Estudos de Paz e Transformação de Conflitos. Cada um possui sua própria história, fundamentos teóricos e métodos de investigação, mas encontramos entre eles importantes interfaces para compreender a experiência humana, as relações e as condições que podem favorecer uma cultura de paz.

A Ciência Contemplativa é um campo interdisciplinar dedicado à investigação da mente, da consciência e da experiência humana, promovendo o diálogo entre métodos contemplativos desenvolvidos ao longo de séculos e as ciências contemporâneas da mente. Na perspectiva de B. Alan Wallace, cientista e pesquisador norte-americado, renomado em Ciência Contemplativa, as práticas contemplativas não são apenas objetos de estudo, mas também métodos de investigação em primeira pessoa. Por meio do treinamento sistemático da atenção e da observação da própria experiência, desenvolvemos maior precisão para investigar pensamentos, emoções, sensações, sentimentos, percepções e outros fenômenos mentais. Assim como as ciências utilizam instrumentos para ampliar sua capacidade de observar fenômenos externos, a Ciência Contemplativa busca refinar a própria mente como instrumento de investigação, em diálogo com métodos científicos de estudo da experiência humana. Seu propósito não é apenas produzir conhecimento sobre a mente, mas também investigar condições que favoreçam maior equilíbrio, discernimento e bem-estar genuíno nas relações intra e interpessoais. Em nossas formações, essa perspectiva é particularmente a base de todo nosso trabalho.

Os Estudos de Paz e Conflitos constituem um campo acadêmico consolidado em diferentes partes do mundo e que, no Brasil, vem se desenvolvendo e ganhando espaço progressivamente. Trata-se de um campo transdisciplinar, dedicado à investigação da natureza da paz e dos conflitos em suas múltiplas dimensões. Seu diálogo se estende a diferentes áreas do conhecimento, entre elas Ciência Política, Sociologia, História, Antropologia, Psicologia, Filosofia, Teologia, Relações Internacionais e Saúde e, em nossa abordagem, também à Ciência Contemplativa. Mais do que compreender a paz apenas como ausência de guerra ou violência, interessa-nos investigar quais causas e condições podem favorecer seu florescimento nas relações, comunidades e sociedades.

A Transformação de Conflitos acrescenta uma terceira perspectiva fundamental. Em diálogo com trabalhos de autores como Wolfgang Dietrich e John Paul Lederach, compreendemos o conflito não apenas como um problema que precisa ser eliminado ou solucionado. Os conflitos fazem parte das relações humanas e podem revelar padrões relacionais, necessidades, estruturas e condições que precisam ser compreendidos e transformados. Nessa perspectiva, as relações ocupam um lugar central na Transformação de Conflitos.

É justamente na interface entre esses três campos que encontramos a base de nossa abordagem. A Ciência Contemplativa oferece métodos para investigar a própria experiência e cultivar qualidades internas. Os Estudos de Paz ampliam nossa compreensão sobre a paz e sobre as condições que podem favorecer culturas de paz. A Transformação de Conflitos nos ajuda a compreender os conflitos dentro de sistemas relacionais e a investigar possibilidades de transformação.

Podemos representar esse movimento de maneira simples:

INTELIGÊNCIA RELACIONAL INTRAPESSOAL (MENTE) → INTELIGÊNCIA RELACIONAL INTERPESSOAL (A MENTE E O MUNDO)→ INTELIGÊNCIA RELACIONAL NA AÇÃO NO MUNDO (SEVĀ  - SERVIR)

Entretanto, não compreendemos esses três campos como áreas isoladas ou como um conjunto de conhecimentos a serem simplesmente acumulados. Em nossa abordagem, o conhecimento está a serviço da transformação da pessoa Agente de Paz.

Estudar a mente não é apenas adquirir conhecimentos sobre a mente; é também aprender a investigar a própria experiência. Estudar a paz não é apenas conhecer teorias sobre a paz; é ampliar nossa capacidade de reconhecer e cultivar as condições que podem favorecê-la. Estudar os conflitos não é apenas compreender suas causas e dinâmicas; é desenvolver recursos para encontrá-los com maior abertura, discernimento e capacidade relacional.

Assim, estudo, investigação e prática caminham juntos. O conhecimento proveniente desses três campos oferece mapas, perspectivas e métodos que podem contribuir para uma transformação que começa na relação com nossa própria experiência, se expressa nas relações e encontra sua direção na maneira como participamos e servimos no mundo.

Cultivamos internamente. Exercitamos nas relações. Colocamos a serviço do mundo.

Transformar para servir.

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