INTRAPESSOAL → INTERPESSOAL → AÇÃO/SERVIR
Por Cerys Tramontini
Optamos por utilizar a expressão Inteligência Relacional. Hoje se fala muito em inteligência emocional e competências socioemocionais. Nossa escolha não surge em contraposição a nenhuma dessas perspectivas. Reconhecemos importantes interfaces entre as competências emocionais e socioemocionais, mas nossa abordagem possui algumas particularidades.
Como acontece em qualquer campo do conhecimento, diferentes autores podem compreender esses conceitos de maneiras distintas. O que apresentamos aqui é a perspectiva desenvolvida no Instituto Paz & Mente, a partir de nossa experiência, estudos e pesquisas.
Para nós, Inteligência Relacional é a capacidade de desenvolver relações mais saudáveis com nossa própria experiência, com os outros e com o mundo. Ela parte de uma compreensão fundamental: estamos nos relacionando o tempo todo. Antes mesmo de encontrarmos o outro, já estamos em relação com aquilo que acontece dentro de nós.
O primeiro aspecto que trabalhamos é, portanto, a Inteligência Relacional Intrapessoal: a relação com nosso próprio mundo interno, que aqui podemos chamar de mente ou experiência.
Quando utilizamos a palavra mente, partimos principalmente da perspectiva da Ciência Contemplativa. Não reduzimos a mente ao cérebro nem a compreendemos como uma “coisa” isolada e independente. Sem entrar em discussões filosóficas e conceituais mais profundas, podemos compreendê-la aqui como o campo de nossa experiência subjetiva, no qual pensamentos, emoções, sensações, sentimentos, percepções e memórias surgem, se modificam e desaparecem de maneira dinâmica e interdependente.Estamos continuamente em relação com tudo isso.
Para desenvolver essa dimensão intrapessoal, utilizamos métodos provenientes da Ciência Contemplativa, incluindo estudo, meditação, contemplação, investigação da experiência e escuta profunda. Esses métodos nos ajudam a observar com maior precisão o que acontece e a cultivar qualidades como presença, abertura, curiosidade, estabilidade, paciência, discernimento e compaixão.
A Inteligência Relacional Intrapessoal constitui uma base fundamental para a Inteligência Relacional Interpessoal, pois aquilo que acontece internamente participa inevitavelmente da maneira como encontramos o outro e o mundo.
É importante compreender que não estamos falando de inteligências separadas. Intrapessoal e interpessoal são dimensões de um mesmo processo relacional. Nós as distinguimos pedagogicamente para facilitar a compreensão, mas, na prática, elas estão profundamente interligadas e são interdependentes.
Muitas vezes pensamos na ideia de “relação” apenas como aquilo que acontece entre duas ou mais pessoas. Nossa perspectiva é mais ampla. A relacionalidade começa na maneira como nos relacionamos com nossa própria experiência e se expressa continuamente na maneira como encontramos o mundo. O que acontece internamente influencia nossa maneira de perceber e responder ao que encontramos externamente; e aquilo que encontramos no mundo também afeta continuamente nossa experiência interna.
Essa compreensão nos aproxima de um princípio fundamental de nossa abordagem: a interdependência. Nenhuma relação ou experiência surge isoladamente. Cada encontro depende de inúmeras causas e condições e, ao mesmo tempo, participa da criação de novas condições para aquilo que poderá surgir posteriormente. Por isso, aquilo que fazemos importa.
É justamente nas relações que as qualidades cultivadas internamente encontram seu campo de exercício. Podemos desenvolver paciência durante uma prática contemplativa, mas é diante de alguém com quem discordamos que descobrimos como essa paciência se manifesta. Podemos cultivar abertura em silêncio, mas é quando nossas certezas são desafiadas que encontramos a oportunidade de exercitá-la. Podemos falar sobre compaixão, mas é no encontro com o sofrimento — nosso e dos outros — que ela ganha expressão concreta.
As relações, nesse sentido, tornam-se um campo vivo de treinamento.
É por isso que enfatizamos tanto o treinamento interno. Não somos seres prontos. Se fôssemos fixos e independentes, teríamos que existir por nós mesmos, sem depender de causas, condições, partes ou relações. Mas não é isso que observamos.
Nossa própria existência é um exemplo: para nascermos, dependemos de nossos pais, de condições biológicas, de saúde, alimentação, ambiente e de uma infinidade de outros fatores. E essa interdependência não termina com o nascimento. Continuamos nos constituindo e nos transformando a partir de relações, causas e condições ao longo de toda a vida.
Somos seres em processo. E justamente porque nossas maneiras de perceber, sentir e nos relacionar não são fixas, elas podem ser observadas, investigadas, treinadas e transformadas. Podemos participar do cultivo de novas causas e condições.
Se fôssemos fixos e independentes, não haveria possibilidade de transformação. É porque somos interdependentes que podemos mudar.
Nas relações interpessoais, naturalmente, algumas vezes perderemos a abertura, a paciência ou a clareza. Isso também faz parte do treinamento. O importante é desenvolver recursos que nos permitam reconhecer quando nos afastamos dessas qualidades e saber como retornar. Por isso, métodos consistentes, mapas adequados e professores qualificados oferecem uma estrutura importante para reconhecermos nossos padrões, retomarmos o treinamento e continuarmos investigando nossa experiência.
Há, finalmente, uma terceira dimensão fundamental: a Inteligência Relacional na Ação, que consiste em colocar aquilo que cultivamos internamente e exercitamos nas relações a serviço do mundo. É a dimensão do servir: levar conhecimento, presença e habilidades relacionais para nossas famílias, comunidades, organizações e diferentes contextos de atuação, transformando o treinamento em ação consciente e comprometida com o bem-estar coletivo.
Treinamos internamente para nos relacionarmos melhor e cultivamos relações mais saudáveis para servir ao mundo.
A Inteligência Relacional descreve, portanto, um movimento contínuo e interdependente: da relação com nossa própria experiência à relação com o outro e, dessas relações, à ação no mundo.
É esse movimento que, em nosso programa, chamamos de Inteligência Relacional.
Transformar para servir.