A paz começa na mente: por que o treinamento interno é essencial para a pessoa Agente de Paz

por Cerys Tramontini

“Uma vez que as guerras começam na mente dos homens, é na mente dos homens que as defesas da paz devem ser construídas.” Preâmbulo da Constituição da UNESCO, 1945

Essa afirmação toca em um dos princípios fundamentais que orientam nossa formação no Instituto Paz & Mente: não podemos investigar profundamente a paz sem investigar também a mente daquele que a experiencia.

Conflitos, diferenças, incertezas e situações desafiadoras fazem parte da experiência humana. Nem sempre podemos escolher aquilo que surge diante de nós, mas podemos desenvolver recursos internos que transformam a maneira como nos relacionamos com essas experiências.

Imagine que uma situação difícil surja inesperadamente. Se, naquele momento, nossa mente estiver dominada pela impulsividade, pelo ódio, pela agressividade, pela reatividade ou pelo fechamento, teremos menos espaço interno para compreender o que está acontecendo e escolher como responder. Se, ao contrário, tivermos cultivado atenção, discernimento, abertura, curiosidade, estabilidade, cuidado e compaixão, ampliaremos nossa capacidade de responder à mesma situação de maneira diferente.

A situação externa pode ser exatamente a mesma. O que muda é a qualidade da mente que se relaciona com ela. É justamente aí que encontramos uma das razões pelas quais o treinamento da mente é tão importante para a pessoa Agente de Paz.

Treinar a mente não significa evitar conflitos, eliminar emoções difíceis ou construir um estado artificial de tranquilidade. Significa desenvolver maior capacidade de reconhecer aquilo que surge em nossa experiência e aprender a nos relacionar com isso com mais clareza, discernimento, compaixão e menos reatividade.

Esse treinamento possui uma característica fundamental: sua aplicabilidade é imediata. À medida que cultivamos uma relação mais saudável com nossos próprios pensamentos, emoções, sensações, sentimentos e percepções, desenvolvemos qualidades internas que se expressam diretamente na maneira como nos relacionamos com os outros. Cultivamos primeiro internamente para, então, colocar essas qualidades a serviço das relações e do mundo. Assim, o treinamento da mente não permanece restrito à experiência individual: ele se manifesta na forma como escutamos, dialogamos, respondemos aos desafios e nos relacionamos com a vida. Elas passam a participar da maneira como tomamos decisões, encontramos diferenças e respondemos aos desafios. Elas atravessam nossas relações familiares, profissionais, comunitárias e sociais.

Por isso, transformação interna e transformação das relações não são processos separados. Elas se influenciam continuamente. A maneira como nos relacionamos com nossa experiência interna participa da maneira como nos relacionamos com o outro; e nossas relações, por sua vez, continuam transformando nossa experiência. É nesse campo de interdependência que compreendemos a paz como uma experiência profundamente relacional.

Treinar a mente também não significa retirar-se do mundo. Nossa perspectiva é justamente a oposta: treinamos a mente para estar mais plenamente no mundo. Treinamos para desenvolver recursos internos que nos permitam encontrar situações complexas sem sermos imediatamente conduzidos por nossos impulsos; para escutar melhor, reconhecer nossas próprias reatividades, sustentar diferenças, permanecer abertos diante daquilo que desafia nossas certezas e agir com discernimento sem perder a compaixão.

Nesse sentido, o treinamento interno não é o destino final da pessoa Agente de Paz. É uma base para sua ação no mundo.

Se as guerras podem começar na mente humana, como nos lembra o preâmbulo da Constituição da UNESCO, talvez seja necessário perguntar também: que qualidades precisamos cultivar em nossa mente para contribuir para relações mais pacíficas?

Essa pergunta desloca a paz do campo exclusivamente abstrato para o campo da experiência. A paz deixa de ser apenas algo que desejamos para o mundo e passa a ser também algo que podemos investigar, cultivar e expressar na maneira como nos relacionamos.

É por isso que, no Instituto Paz & Mente, a formação da pessoa Agente de Paz começa também pelo treinamento interno. Não porque acreditamos que todos os conflitos do mundo possam ser resolvidos individualmente ou que condições sociais, históricas e políticas não sejam importantes, mas porque qualquer transformação que envolva seres humanos também envolve mentes, relações e ações.

Treinar a mente, portanto, não significa retirar-se do mundo. Significa desenvolver recursos internos para estar no mundo com mais integridade, clareza, abertura, discernimento, não reatividade e compaixão.

Transformar para servir.

Anterior
Anterior

Por que utilizamos a Ciência Contemplativa como base do treinamento interno da pessoa Agente de Paz?

Próximo
Próximo

O que são os Estudos de Paz e Conflitos como campo acadêmico?